A crise no Vaticano
31/08/2018 15:59 em Igreja

As acusações do monsenhor Viganò contra o Papa Francisco são

verdadeiras?

POPE FRANCIS

Jesús Colina

 

 

Novas revelações nos permitem entender melhor a crise que a Igreja está passando

A carta do arcebispo Carlo Maria Viganò, ex-núncio apostólico nos Estados Unidos, divulgada entre 25 e 26 de agosto, pedindo a renúncia do Papa Francisco, foi uma bomba para os católicos do mundo.

Centenas de artigos, publicados nos dias seguintes, serviram para gerar confusão, mas também para adicionar novos dados, inclusive revelações autênticas, que ajudam a entender melhor o valor da carta.

Oferecemos abaixo algumas conclusões que, no momento, podem-se extrair da informação publicada e verificada.

 

A suposta aprovação de Bento XVI, “fake news”

Jornalistas e outras pessoas próximas ao arcebispo Viganò declararam publicamente que a carta teria tido a aprovação, antes de sua publicação, do Papa emérito Bento XVI (Cf. New York Times, 27 de agosto de 2018 ).

Isso foi desmentido pelo secretário pessoal do Papa Bento XVI, o arcebispo Georg Gänswein: “A afirmação segundo a qual o Papa emérito teria confirmado essas declarações não tem fundamento. Fake News (Notícia falsa)”.

Em declarações ao jornal alemão Die Tagespost, o prelado alemão esclarece: “O Papa Bento não se pronunciou sobre o ‘memorando’ do arcebispo Viganò e não o fará”.

 

Perguntas que ainda precisam ser respondidas

O arcebispo Viganò pede a renúncia do Papa Francisco porque este não teria respeitado as supostas “sanções canônicas” que o Papa Bento XVI havia emitido em particular contra o ex-cardeal Theodore McCarrick, de 88 anos, que atualmente é acusado de abusos sexuais ocorridos no passado.

Em sua carta, Viganò afirma que essas sanções, pelas quais o Papa Bento pedia a McCarrick para retirar-se em uma vida de oração e penitência, foram comunicadas oralmente a ele mesmo, em novembro de 2011, pelo cardeal Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos, no contexto de sua nova missão como núncio apostólico em Washington.

Surge, então, uma questão central: como é possível interpretar a participação do arcebispo Viganò em uma homenagem pública ao ex-cardeal McCarrick, em 2 de maio de 2012, no Pierre Hotel, em Manhattan?

Segundo o Catholic New York, jornal dessa arquidiocese, monsenhor Viganó participou da entrega ao então cardeal McCarrick da medalha com as chaves de São Pedro, que é o símbolo do Papa.

O evento foi organizado pelas Pontifícias Obras Missionárias que, como o nome sugere, dependem do Sumo Pontífice.

 

Neste Tweet, por exemplo, você pode ver uma foto da cerimônia:

Dawn Eden Goldstein

@DawnofMercy

 · 26 de ago de 2018

 May 2, 2012: Vigano greets guests on behalf of Benedict XVI at Pontifical Mission Societies gala honoring McCarrick! http://cny.org/stories/recalling-pagan-babies-and-the-sense-of-mission-they-inspired,7503 … This is well *after* Vigano alleges B16 sanctioned McCarrick. His letter deserves careful scrutiny. @jdflynn @roccopalmo @AmericanPapist pic.twitter.com/IwxGaDmTNa

Dawn Eden Goldstein

@DawnofMercy

Here is a photo from the 2012 World Mission Dinner where Vigano, far right, greeted guests on behalf of Benedict XVI. Note McCarrick at center. http://www.cardinalseansblog.org/2012/05/page/4/  @TheAnchoress @lauriegnyt @BobNLestrange @jdflynn pic.twitter.com/xPRukkuVdh

 

 

 

Até agora, ninguém confirmou que o Papa Bento XVI tinha emitido tais sanções em particular contra McCarrick.

 

O mais interessado na aplicação destas disposições, o seu sucessor na arquidiocese da capital dos Estados Unidos, o cardeal Donald Wuerl, declarou publicamente que desconhece a existência de tais sanções, fato confirmado pela arquidiocese.

O próprio Papa Bento XVI teria desrespeitado suas disposições, caso as tivesse emitido, pois, como foi amplamente documentado por vários meios de comunicação, ele participou de celebrações públicas com McCarrick, após a sua suposta decisão.

Como exemplo, neste vídeo é possível ver a saudação fraterna, no Vaticano, em 28 de fevereiro de 2013, portanto, dois anos depois das supostas medidas que ele mesmo teria ordenado contra McCarrick.

A carta do arcebispo Viganò pede a renúncia do Papa Francisco por não ter respeitado as supostas sanções contra o cardeal McCarrick, sanções que o próprio Viganò teria desafiado, pois este participou de uma homenagem pública a McCarrick. Nesse contexto, até o próprio Papa Bento XVI teria desrespeitado suas supostas sanções.

A carta coloca uma segunda questão que o arcebispo Viganò terá de responder. Como ele pode justificar a violação de segredo pontifício, ao qual um núncio apostólico está obrigado?

Quando o arcebispo Viganò se comprometeu a representar o Papa Bento XVI nos Estados Unidos, a responsabilidade de manter o segredo pontifício foi assumida, em particular na questão da nomeação de bispos, como estabelece “Secreta continere”, a instrução sobre o segredo pontifício emitida com a aprovação de Paulo VI em 1974.

O documento em latim específica que o segredo pontifício, nestes cargos, deve ser mantido “já que se trata de esfera pública, que afeta o bem de toda a comunidade religiosa”.

Portanto, não se trata de algo que possa ser violado “segundo os ditames da própria consciência”, como Viganò parece querer justificar.

A quebra de segredo pontifício se trata do ato de infidelidade mais grave que um núncio apostólico pode cometer em seu serviço ao Papa.

No passado, monsenhor Viganó havia violado o segredo papal em seus vazamentos no caso de Vatileaks.

É importante esclarecer que, neste caso, o segredo pontifício não tem nada a ver com qualquer silêncio usado para ocultar crimes cometidos por clérigos.

Ao colocar este questionamento, não estamos julgando a pureza de intenção do monsenhor Viganò.

 

Mais clericalismo…

A publicação da carta levou alguns bispos dos EUA a adotarem duas posições: a de quem dá crédito ao arcebispo Viganò e a de quem ataca suas acusações.

Em geral, essas posições representam as duas tendências mais representativas no episcopado deste país.

Desta forma, um novo debate foi aberto entre os sucessores dos apóstolos, em que há muita “política” eclesial entre dois lados opostos.

A carta despertou uma nova polêmica entre clérigos (clericalismo) que não ajuda na reflexão objetiva e sincera sobre a busca das causas que levaram a uma crise tão séria.

 

E as vítimas?

Da mesma forma, toda essa controvérsia colocou em segundo plano a obrigação da Igreja de reparar o terrível dano cometido por alguns clérigos contra as vítimas de abuso.

As vítimas deveriam ser a prioridade em toda esta reflexão, tal e como declarou o Cardeal Di Nardo quando prometeu ir ver o Papa e tomar medidas para enfrentar esta questão ainda mais vigorosamente.

O importante gesto de reparação, que o Papa Francisco presidiu na missa no final de sua visita à Irlanda, foi totalmente ofuscado pela publicação da carta.

Dois jornalistas italianos que colaboraram na divulgação da carta explicaram que a escolha dessa data foi explicitamente acordada com Viganò.

E em todas as polêmicas desses dias, as vítimas deixaram de estar no centro: as controvérsias parecem servir aos interesses da política eclesiástica.

 

Necessidade de uma investigação confiável sobre o caso McCarrick

Mas, em toda esta polêmica, há uma exigência que une todas as partes envolvidas: a necessidade de fazer uma investigação confiável que permita responder a uma grande pergunta: como é possível que o cardeal McCarrick, que recentemente ficamos sabendo que era conhecido por seu histórico de abusos, poderia ter sido nomeado arcebispo de Washington e até mesmo cardeal por João Paulo II?

Não serão testemunhos como o de Viganò que darão uma resposta confiável à Igreja e ao mundo.

Como explicou o presidente da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, cardeal Daniel N. DiNardo, depois de ter consultado a Santa Sé, somente uma investigação independente, da qual fará parte uma comissão de leigos, poderá ser capaz de esclarecer a verdade e de devolver a credibilidade que está faltando hoje.

Somente “a verdade vos libertará” (João 8,31-38). Este é o único caminho, proposto por Jesus, para superar as divisões clericais e a crise que a Igreja enfrenta.

E todos os crentes, desde o Papa até os cardeais, passando pelos bispos, sacerdotes, religiosas e religiosos, até chegar ao último leigo, em meio a esse sentimento de naufrágio do seu barco, que é a Igreja, devemos clamar em oração, como fizeram os apóstolos de Jesus: “Senhor, salva-nos! Estamos afundado!” (Mateus, 8,24-26).

Aqueles que lêem o Evangelho já conhecem a resposta dada pelo Mestre.

 

Fonte: Aleteia

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